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Muitas pessoas não foram treinadas para se satisfazerem com o que têm, mesmo que elas tenham tanta coisa

Liguei o rádio do carro e, santa nostalgia: estava tocando uma música da Janis Joplin que marcou minha infância, mesmo que naquela época eu não entendesse quase nada de inglês não que entenda muito hoje. Você deve lembrar, é um clássico, começa dizendo: Oh, Lord, wont you buy me a Mercedes-Benz? My friends all drive Porsches, I must make amends, que significa, mais ou menos: Oh, Senhor, não quer me comprar um Mercedes-Benz? Todos os meus amigos dirigem Porsches, eu preciso compensar. E seguia nesta irônica e provocativa prece pedindo nem paz, nem amor, e sim uma TV a cores e noitadas.

Se Ele a amasse mesmo, não a deixaria na mão.

Oh, Lord, quantas pessoas, hoje, não estão por aí também rezando por uma Louis Vuitton que não seja de camelô e por uma poderosa TV de plasma? Elas abrem as revistas e estão todos tão melhores de vida do que elas, como ser feliz sem igualdade de condições? Dê a estas pessoas o que elas pedem, Senhor, é só fazê-las ganhar um sorteio, uma rifa. Imagine a dificuldade que o Senhor teria para atendê-las caso elas pedissem um mundo mais acolhedor, menos agressivo, mais sensato, o trabalhão que iria dar.

Oh, Lord, reconheça a inocência de quem lhe pede uma casa na praia, um chalezinho na montanha, ou mesmo um belo apartamento em bairro nobre, o Senhor sabe que estas pessoas não foram treinadas para se satisfazerem com o que têm, mesmo que tenham tanta coisa, como família, paz de espírito, um emprego decente, mas isso não conta, isso não enche barriga de ninguém.

Oh, Lord, ninguém anda rezando por fé, pela saúde do vizinho, para resistir aos apelos consumistas, nem mesmo para simplesmente dizer “Obrigada, Senhor”. Não se faz mais este tipo de concessão: afinal, obrigada por quê? Eles querem ser convidados para as festas. Eles querem melhorar. Compense-os com um relógio de grife, uma corrente de ouro, um celular bem fininho e uma câmera digital, eles não podem comprar, mas o Senhor pode, o Senhor tem crédito em qualquer loja, o Senhor só precisa fazer abracadabra e tudo se resolve.

Janis Joplin gravou esta música em 1970. Nos últimos 37 anos, o número de súplicas estapafúrdias segue aumentando e quase ninguém mais lembra de agradecer o mistério da existência, o poder transformador dos afetos, a liberdade de escolha, o contato com o que ainda nos resta de natureza, o encanto dos encontros, a poesia que há numa vida serena, a alma nossa de cada dia, essas coisas que parecem tão obsoletas, e pelo visto são. Oh, Lord, desça daí, faça alguma coisa, que aqui embaixo trocaram o abstrato pelo concreto e não demora estarão pedindo a parte deles em dinheiro. (Texto de MARTHA MEDEIROS).

Não sabemos mais o que orar, por que nos perdemos de Deus e nos perdemos de nós mesmos. A vida tem se resumido a um amontoado de coisas, quinquilharias, bugigangas… Tornamo-nos o que consumimos… Oramos e pedimos, assim, pelo vazio da vida, pois no amontoado de coisas e marcas, nos perdemos da própria vida. Pensem nisto! Uma boa semana! P. Júlio C. Adam

Nós somos santuários do Deus vivente.

2 Coríntios 6.16